5 de abril de 2009
Não há hoje expressão mais ridícula do que “Brasil, país do futuro”. Na realidade, este país nunca encarou o futuro como um projeto a ser construído, com objetivos de longo prazo e sustentáveis. Exemplos? Há muitos: a baixa prioridade conferida à educação, à ciência e à pesquisa e às questões básicas de saúde pública. Onde estão os projetos tecnológicos mais ambiciosos, como os da microeletrônica e do software?
É claro que, no decorrer do século 20, o Brasil contou com a lucidez de alguns líderes, de cuja luta resultaram projetos de longo prazo, instituições e centros de excelência, entre os quais, a Universidade de São Paulo (USP), a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), a Embraer, a Petrobras e a Embrapa. Sem essas realizações, nossa penúria seria quase total.
Nas últimas décadas, no entanto, em todas as esferas de poder, a grande maioria dos homens públicos tem agido como se o País fosse um imenso celeiro a ser saqueado no menor prazo possível. Tente, leitor, levar a um ministro ou governante uma idéia ou projeto realmente sério, de relevância e de interesse nacional, mas de longo prazo. Eu tenho tentado. De vários deles ouço respostas como esta: “Você está maluco. Um projeto com prazo de maturação de 10 anos? Minha prioridade são as próximas eleições”.
CULPA DE ZWEIG?
Tenho sérias dúvidas quanto aos efeitos sobre minha geração de um livro como Brasil, País do Futuro, de Stephan Zweig, publicado em 1940. Acho que o livro trouxe mais malefícios do que benefícios. Em minha adolescência, meus pais e professores enchiam o peito e repetiam a mesma frase sobre nossa destino histórico. Durante décadas, todos nós, povo e políticos, passamos a acreditar que o futuro magnífico cairia do céu, sem muito esforço de nossa parte, graças ao formidável patrimônio natural do País – com suas terras férteis, rios, florestas, fauna, clima e riquezas minerais.
O tempo passou, o século 21 chegou, mas a previsão de Zweig não se concretizou. Ao contrário. A realidade de 2009 só nos deixa mais desencantados – diante do tamanho dos problemas. Como chagas, as grandes lacunas de nosso desenvolvimento econômico e social exibem o retrocesso de setores vitais, a começar da educação pública. Muitas vezes me pergunto: que restou do sonho de Anísio Teixeira? Lembro-me do grande educador baiano toda vez que leio ou ouço o senador Cristovam Buarque – incansável e solitário pregador da causa educacional de nossos tempos.
O QUE DESTRUÍMOS
Há mais de 30 anos, publiquei uma série de reportagens nas páginas deste Estado, com advertências dramáticas sobre o futuro da Floresta Amazônica e de nosso patrimônio natural, com base no depoimento de especialistas como Mário Guimarães Ferri e José Lutzemberger.
Pois bem: que aconteceu ao longo de três décadas, depois de todas as campanhas e centenas de outras matérias publicadas na imprensa brasileira, com as mesmas advertências, inclusive os primorosos artigos de Washington Novaes? Em lugar da preservação, assistimos à destruição de 20% da Floresta Amazônica, à contaminação crescente dos rios e do ar. Entre as raras vitórias, a duras penas, conseguimos banir o DDT e outros pesticidas de nossa agricultura. É muito pouco.
BRASIL VS. COREIA
Uma comparação entre Brasil e Coreia do Sul ao longo de 40 anos nos ajuda a esclarecer alguns pontos a respeito da situação do Brasil. Confira, leitor:
* Em 1969, o Brasil tinha 90 milhões de habitantes e um Produto Interno Bruto (PIB) de US$ 32 bilhões, enquanto a Coreia alcançava 32 milhões de habitantes e um PIB de US$ 5,7 bilhões.
* O Brasil tem hoje 191 milhões de habitantes e um PIB da ordem de US$ 960 bilhões. A Coreia, acreditem, leitores, com uma população de apenas 50 milhões, tem um PIB maior que o brasileiro: US$ 1,1 trilhão.
* A renda per capita brasileira de 1969 era de US$ 350, enquanto a da Coreia não alcançava US$ 200. Hoje, a renda brasileira mal chega a US$ 5.000, enquanto a coreana ultrapassa US$ 21.000.
* A mortalidade infantil no Brasil de 1969 era de 112 óbitos por mil nascimentos. A da Coreia, de 50 por mil. Hoje, o índice brasileiro ainda chega a 23 por mil. O da Coreia, a apenas 4 por mil.
* A expectativa de vida brasileira, em 1969, era de 55 anos, contra 43 anos na Coreia. Hoje, a média brasileira chega a 72 anos. A da Coreia supera os 78 anos.
* O índice de analfabetismo no Brasil era de 39%, contra 13% na Coreia. Hoje, o Brasil está com 13% contra 3% da Coreia.
O grande diferencial nos últimos 40 anos foi um só: a Coreia do Sul, um país menos desenvolvido que o Brasil de 1969, investiu maciça e prioritariamente em educação. Com isso, progrediu muito mais em todos os campos, inclusive na indústria eletrônica, nas telecomunicações e na oferta de serviços de banda larga.
Há outros exemplos edificantes. Vejam o que se passou na Finlândia, no Japão, na Irlanda, em Taiwan, no Vietnã e na China. Todos investiram obsessivamente em educação, no futuro, nos projetos de longo prazo, sem cessar, continuadamente.
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